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O feliz
O feliz Colocou um pouco de álcool numa cumbuca de lata vazia e acendeu. Com um espeto de churrasquinho de rua passa uma calabresa pelo fogo até ficar assada. Depois assa um pimentão. Abre o pimentão ao meio e coloca a calabresa dentro. Comeu tudo bem devagar. Saboreou cada mordida como se fosse o jantar mais delicioso do mundo. Ele que sempre viveu rodeado dos melhores chefs e provou diversas maravilhas da gastronomia mundial agora saboreava um pimentão com calabresa como se fosse um Ceviche Peruano ou um Nachos do Monoloco da Guatemala. Se a sua mãe ou sua avó o visse comendo isso... Se a sua mãe ou sua avó o visse naquele instante... Talvez ao invés do espanto, ficassem felizes. Imensamente felizes após dois anos do seu sumiço. Disse que ia para o Egito e veio para o Rio. Elas até hoje o procuram por lá. E ele vive livre pelas ruas do Rio de Janeiro. Não tem dinheiro, mas sua liberdade não tinha mais preço. Deitou no chão gelado das rochas. A lata acesa ilumina tudo ao seu redor e o Alto da Boa Vista e o mar do Arpoador fica parecendo para ele, uma tela renascentista. Ele, que fugira de sua mãe e da sua avó, escapou de dois manicômios e cinco abrigos desde que chegou ao Rio, tinha certeza apenas de uma coisa em sua vida, como nunca teve tanta certeza um dia na vida: estava feliz.
Escrito por Ricardo Rodrigues às 23:54
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